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Lições de uma penteadeira

Lições de uma penteadeira

Por Evandro Valentim de Melo

Trabalho há mais de duas décadas em uma área frequentemente designada por duas letras: RH. A sigla não deixa dúvidas quanto ao que se faz.  Mais até do que a expressão “recursos humanos”, que gera infindáveis discussões entre especialistas do meio, que procuram, sempre, rebatizá-la.

O RH exige lidar com a complexidade humana. Proporciona incrível aprendizado por isso. Nada há de trivial nessa lida. Não raro, adentramos ao incrível universo de histórias, dos “causos” protagonizados pelas pessoas que procuram o RH, com pedidos, queixas, dúvidas, problemas graves e outros, nem tanto. Dia desses, um jovem senhor de 36 anos de idade me procurou.

Buscava orientação, pois estava, analogamente, diante de uma bifurcação, que lhe exigia posicionamento para a vida. A decisão impactaria no presente e, em maior profundidade, no seu futuro.

De ganhos medianos, esse humilde e pouco escolado colega, hesitava em aderir ao plano de previdência complementar oferecido pela empresa. A ideia até o atraía, mas abrir mão dos poucos prazeres que se permitia, direcionando os recursos para salvaguardar um mínimo de qualidade ao seu futuro como aposentado, o angustiava. Tal situação não era inédita. Nós, do RH, compreendemos tal hesitação.

– A velhice ainda está longe – disse-me ele.

Uma vez que o colega sequer havia concluído o ensino fundamental, seria pouco efetiva a explicação sobre rentabilidade, garantias governamentais etc.

Optei por uma técnica que julguei mais apropriada, por mim aprendida nas andanças pela academia: a contação de história, chamada pelos gringos storytelling. Perguntei-lhe se poderia contar uma história de minha família, da qual tirei alguns ensinamentos.

– Pode, claro.

– Quando eu nasci, meu pai já contava quarenta e sete anos; minha mãe, quarenta e um. Era grande, portanto, a diferença de idade entre mim e meus pais. Fui a ‘rapa do tacho’ dos filhos. Lembro-me de um móvel no quarto deles, não sei se você o conhece, ou se hoje em dia, ainda se usa esse tipo de móvel: uma penteadeira.

– Conheço. Meus pais têm uma, na casa deles, lá no Maranhão.

– Recordo-me que essa penteadeira era dividida meio a meio por meus velhos, com produtos de cada um: loção de barba, perfume, talco, escova de cabelo, pente, cremes, coisas assim. À medida que eu crescia, e eles envelheciam, tais produtos foram sendo gradualmente substituídos. Toda a área da penteadeira passou a ser ocupada por medicamentos. Manter a saúde requer cuidados redobrados quando somos idosos.

– Só remédio caro!

– Caros e, pior, de uso contínuo. Pouco tempo depois que meu pai se aposentou, ele adoeceu. Logo ele, até então saudável, habilidoso e cheio de disposição. Minha mãe, pouco depois, somou suas próprias doenças às dele. Se o dinheiro da aposentadoria de meu velho já era insuficiente para os remédios de um, imagine para os dois.

– E como eles fizeram?

– Nesses momentos, nada como ter muitos filhos. Cada um contribuía com um pouco, de modo a que jamais lhes faltassem os remédios. Não fosse isso, certamente eles teriam penado.

Percebi verdadeiro interesse no olhar de meu interlocutor. Prossegui:

– Observar a mudança dos produtos sobre a penteadeira, desde cedo me ensinou a pensar no futuro. Eu dizia a mim mesmo “tenho que ter grana para, ao menos, comprar meus remédios na velhice”. Diferentemente de meus pais, nem filhos tenho. Eu mesmo é que terei de suportar os gastos com meus remédios, quando eu chegar à velhice. Minha alternativa? Guardar um pouco todo mês, desde cedo.

Contei algumas passagens pitorescas de meu pai e o quanto nós, os muitos filhos nos esforçamos para que sua velhice fosse a melhor possível.

O colega permaneceu reflexivo, como se assistisse ao filme da história narrada. Esperei ele voltar à realidade. Quando o fez, disse-me:

– Dê cá a papelada. Amanhã trago tudo preenchido e assinado.

Ao final do expediente, nos encontramos na saída da empresa. Ele se aproximou, agradeceu-me pelas orientações e se foi, com um sorriso de agradecimento. Senti tremendo bem-estar. RH proporciona incrível aprendizado, mas é estrada de mão dupla, às vezes, ensinamos também.

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34 Comentários sobre “Lições de uma penteadeira

    1. Exatamente, Viviane!
      A forma de abordagem do Valentim foi de muita sensibilidade e cuidado com o próximo, e com certeza, esse gesto dele fará muita diferença no futuro desse funcionário!
      Agradecemos a sua visita.
      Volte sempre 😘

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  1. Este escritor brasileiro, para mim, é uma das grandes revelações nacionais. Seus livros são uma prazerosa viagem literária. Esta crônica não deixa dúvidas. Parabéns, Sr. Valentim. Lê-lo é alargar o conhecimento.

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  2. Parabéns ao Evandro por este texto e tantos outros. Sinto-me privilegiada, pois além de ser um amigo muito querido foi meu líder e me ensinou bastante!

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  3. O grande problema da maioria das pessoas é que começam a se preocupar com a velhice quando ela já está bem próxima. Ótimo conto que ilustra bem como deveríamos nos preocupar em investir financeiramente enquanto podemos, visando uma velhice mais confortável.

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    1. Oi, Artur!

      Exatamente isso. Infelizmente nós não fomos educados para pensar a longo prazo, quanto mais planejar a aposentadoria. Mas aos poucos e com a ajuda de profissionais como o Evandro, vamos progredindo na cultura previdenciária.

      Aproveite a passagem no Blog para ler o nosso conteúdo.
      Volte sempre 😘

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  4. Muito bom mesmo. Esta é mais uma crônica sucesso que com muita simplicidade é capaz de convencer alguém a tomar uma boa decisão. Parabéns, super Evandro, pelo super texto.

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  5. Esse texto nos remete ao passado, nos alerta para o presente (como estamos vivendo o nosso hoje?) e nos leva a pensar no futuro . É um texto terno e ao mesmo tempo forte.

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  6. Ler este texto muito bem escrito e com um linguajar acessível e bem atual nos leva a refletir sobre previdência privada. Recordo-me do primeiro contato que tive com o departamento de RH na primeira empresa em que trabalhei, em 1993. A crônica escrita pelo Evandro passou como trecho de um filme da minha vida, quando cheguei ao RH para entregar a documentação pertinente à contratação e fui incentivado a aderir a um plano de previdência privada. Hoje sou grato pela oportunidade de, naquele momento, ter sido instruído a assiná-lo, já que essa decisão trouxe muitos benefícios para minha família

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    1. Olá Flávio!

      Obrigada pela visita e por compartilhar conosco a sua experiência com a Previdência Privada. E mais uma vez, vemos que o RH tem um papel muito importante nessas tomadas de decisões!

      Grande abraço 🤗
      Volte sempre 🙋

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